[dropcap]A palavra[/dropcap] empreendedorismo remete-nos há 800 anos, com o verbo francês entreprendre, que significa “fazer algo”. Uma das primeiras definições da palavra “empreendedor” foi elaborada no início do século XIX pelo economista francês J.B. Say, como aquele que transfere recursos econômicos de um setor de produtividade mais baixa para um setor de produtividade mais elevada e de maior rendimento.

*Numa definição mais actual podemos dizer que empreendedorismo é a criação de valor por pessoas e organizações trabalhando juntas para implementar uma ideia através da aplicação de criatividade, capacidade de transformação e o desejo de tomar aquilo que comumente se chamaria de risco.

Empreendedorismo e sustentabilidade

O empreendedorismo é hoje um fenômeno global, sobre o qual diversas instituições públicas e privadas têm investido para pesquisar e incentivar. Existe uma clara correlação entre o empreendedorismo e o crescimento econômico. Os resultados mais explícitos manifestam-se na forma de inovação, desenvolvimento tecnológico e geração de novos postos de trabalho. A riqueza gerada pelos empreendedores contribui para a melhoria da qualidade de vida da população e, não raras vezes, é reinvestida em novos empreendimentos e, de maneira indireta, nas próprias comunidades.

Em Angola nos últimos tempos o movimento empreendedor tem crescido resultado de algumas politicas que favorecem novos negócios, podemos citar a possibilidade de constituir uma empresa a partir de doze mil kwanzas, e em menos de vinte e quatro horas no guichê único e a criação do balcão único do empreendedor (BUE).

Os padrões sócio-culturais demonstram uma postura favorável à atividade empreendedora em Angola, podemos afirmar que o Angolano é empreendedor por natureza, os pequenos negócios familiares como a venda de gelado de múkua, água fresca, quissangua, micates, pipocas e outros produtos justificam esta afirmação, embora muito destes negócios não serem sustentáveis, pois se afirmam como tapa-buracos necessários para colmatar pequenas necessidades financeiras de muitas famílias, podemos classificar esse tipo de empreendimentos como empreendimento de necessidade ou seja é a única opção de investimento.

Empreendimentos “de Oportunidade” versus “de necessidade”

Um empreendimento é “de oportunidade” quando o empreendedor iniciou ou investiu em um negócio a fim de aproveitar uma oportunidade percebida no mercado, podemos exemplificar o surgimento de serviços de taxis devido à expansão da cidade capital Luanda.

É “de necessidade” quando se trata da melhor opção de trabalho disponível, o que chamamos de tapa-buracos financeiros, vender água fresca é um exemplo de empreendimento de necessidade.

Ambos florescem em países onde há desigualdade na distribuição de renda, mas onde as pessoas têm expectativa de que a situação econômica irá melhorar. Os de oportunidade aparecem em maior número onde há reduzida ênfase na manufatura, baixa intromissão governamental, grande número de investidores informais e respeito pela atividade empreendedora. Os de necessidade são mais comuns onde o desenvolvimento econômico do país é relativamente pequeno, a economia não depende tanto do mercado internacional, os benefícios oferecidos pelo Estado são menos generosos e as mulheres têm menos influência sobre a economia.

Dados “não oficias” sobre o movimento empreendedor em Angola

Baseando-se em alguns estudos de casos que tenho feito sobre o empreendedorismo em Angola, cheguei aos seguintes dados:

– As mulheres Angolanas são bastante empreendedoras: a proporção é de cerca de 60 % da população empreendedora, entenda-se, considero mulheres empreendedoras as empresarias, zungueiras e vendedoras ambulantes.

– A intervenção governamental possui duas facetas: tem diminuído, mas ainda se manifesta como um fardo burocrático;

– Infraestrutura precária e pouca disponibilidade de mão-de-obra qualificada têm impedido a proliferação de programas de incubação de novos negócios fora dos grandes centros urbanos;

– A disponibilidade de capital em Angola é escassa. Muitos empreendedores Angolanos ainda percebem o capital como algo difícil e custoso de se obter. Para piorar, os programas de financiamento existentes não são bem divulgados;

– Existe uma necessidade de aprimoramento no sistema educacional como um todo, o que estimulará a cultura empreendedora entre os jovens e adultos. Os programas existentes têm sido percebidos como desconectados da realidade, com pouca integração à Universidade e ensino básico;

– Não há proteção legal dos direitos de propriedade intelectual, os custos para registro de patentes no país e fora dele são altos e os mecanismos de transferência tecnológica são parcos. As universidades ainda estão isoladas da comunidade de empreendedores.

– O ambiente político e econômico tem aumentado o nível de risco e incerteza sobre a estabilidade e o crescimento. Com eleições marcadas para 2017, aparentemente, estas expectativas melhorarão ao meio de 2016;

Ainda assim acredito que Angola tem os elementos básicos necessários para iniciar uma verdadeira revolução empreendedora, com benefícios tangíveis para toda a sociedade. É imprescindível que os setores público e privado trabalhem em sintonia fina para que isto se produza e possa se transformar numa profecia auto-realizável ainda dentro deste mandato presidencial.

* Definição encontrada em um relatório da  Accenture, resultado de uma pesquisa internacional conduzida entre janeiro de 2000 e junho de 2001.

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